Salomão achou essa frase tão importante que a escreveu duas vezes. Ela aparece aqui, no capítulo 22, e reaparece palavra por palavra no capítulo 27, versículo 12. Quando um provérbio se repete inteiro, é sinal de que o autor sabia exatamente onde a gente tropeça.
E repare no que o versículo mostra: o sensato vê e se esconde; o insensato vê a mesma coisa e vai em frente assim mesmo.
Reflexão
1O Sinal Sempre Chega Antes
Os perigos que quebram uma empresa, um casamento ou uma reputação raramente chegam sem avisar. O caixa apertou três meses antes de faltar dinheiro. O cliente demorou a responder por várias semanas antes de sumir. O sócio mudou de comportamento nas reuniões muito antes da conversa difícil. A conversa de corredor sobre um projeto aconteceu meses antes de alguém colocar o assunto na pauta.
Salomão reforça a mesma ideia dois versículos depois: "No caminho dos maus existem armadilhas e dificuldades; quem dá valor à vida se afasta deles" (v. 5). Repare que o texto trata a armadilha como coisa conhecida, que está lá para quem quiser ver.
Quase ninguém é emboscado de verdade. Na maioria das vezes o sinal chegou, foi visto, e ficou arquivado com a etiqueta de depois eu cuido disso.
2O Insensato Também Viu
Aqui está o incômodo do versículo. Se o problema fosse enxergar, a solução seria informação, e informação nós temos de sobra. A distância não está no que a pessoa sabe; está entre ver e mexer.
Por que alguém continua andando depois de ver? Por três motivos que, na hora, parecem razoáveis.
O dinheiro já gasto. Você colocou quarenta mil reais e oito meses num sistema que nunca engrenou. Parar agora parece jogar fora os quarenta mil, então você segue. Mas os quarenta mil já foram, com ou sem a sua decisão de hoje. A única escolha que ainda existe é quanto você vai gastar por cima do que já perdeu.
O histórico. Você já fechou o mês no aperto umas vinte vezes e sempre virou. Quando o caixa aperta de novo, essas vinte vezes funcionam como prova de que dessa vez também vai virar. Acontece que a sua memória guardou só as vezes em que deu certo, e ela não avisa quando as condições mudaram.
O orgulho. Este é o mais caro. Você defendeu aquele fornecedor na reunião, você escolheu o sócio, você bancou o projeto quando dois diretores torceram o nariz. Sair agora custa mais do que dinheiro: custa dar razão a quem duvidou. Aí a pessoa segue em frente por um motivo que não tem nada a ver com o projeto, porque parar seria uma declaração pública de que ela errou.
É esse terceiro motivo que sustenta as sociedades já mortas na prática, em que os sócios não conversam mais e ninguém dissolve, porque dissolver é assinar embaixo do fracasso. É ele que renova o contrato com o fornecedor que não entrega, só para evitar a conversa constrangedora. E é ele que mantém de pé o projeto cuja conta a empresa inteira já tinha feito e sabia que não fechava.
Ninguém estava desinformado. Todo mundo viu.
3Esconder-se é Movimento
Em português, esconder-se soa como encolher, e o versículo usa o verbo em outro sentido. Ali é ação: a pessoa sensata vê e muda alguma coisa no mundo real.
Mudar de rota é se esconder. Cortar um custo antes de precisar demitir é se esconder. Fazer reserva de caixa em ano bom é se esconder. Encerrar uma sociedade enquanto ainda dá para conversar é se esconder. Tudo isso é ação, e é a única resposta que o versículo aceita como sensata.
E vale nomear o disfarce mais comum do problema: seguir em frente depois do sinal costuma ser vendido como coragem. No vocabulário de Salomão, isso tem outro nome.