Salomão junta duas imagens que, à primeira vista, não têm nada a ver: uma figueira e um patrão. A ponte entre elas é uma palavra só: cuidado. Quem cuida da figueira come figo. E quem cuida bem do que foi confiado a ele é recompensado, inclusive na relação com o patrão. O provérbio descreve uma lei tão previsível quanto a da agricultura: o que recebe cuidado, frutifica.
Reflexão
1O que Você Rega é o que Cresce
A figueira é um exemplo cruel de honestidade, porque ela não responde a intenção, responde a cuidado. Você pode amar muito a sua figueira, falar bem dela para os vizinhos e ter ótimos planos para ela. Se não regar, não vem figo. A árvore ignora o seu discurso e obedece à sua rotina.
Sua vida funciona igual, e é bom olhar para as figueiras que você tem. A sua saúde é uma figueira. O seu casamento é uma figueira. A sua reputação, a sua fé e o vínculo com os seus filhos também. Cada árvore dá, em boa parte, o fruto do cuidado que recebe. E aqui vem um desconforto honesto: quase toda figueira murcha teve, em algum momento, uma rega que parou. Digo quase de propósito, porque nem toda seca é culpa sua. Existe a doença que chega sem aviso, o casamento que você cuidou e o outro largou, o filho que você regou e que mesmo assim se afastou. O próprio Provérbios 27.24 lembra que nem a riqueza nem o poder duram, então nenhum cuidado funciona como blindagem contra a dor. O que o versículo promete é mais humilde: o cuidado é o solo onde o fruto pode nascer, no tempo de Deus.
Pense no concreto. O cliente que você atendeu bem por dois anos e depois passou a tratar no automático. O corpo que você levou à academia em janeiro e abandonou em março. O amigo para quem você só liga quando precisa. Nenhum deles quebrou de uma vez, todos secaram devagar, na exata medida em que o cuidado foi saindo da agenda.
2Cuidar é Simples e Diário
A palavra que atrapalha o cuidado é intensidade. A gente sonha com o gesto grande, a virada heroica, o fim de semana que vai consertar tudo. Mas figueira não se cuida com intensidade, se cuida com constância. É a rega de terça, a poda que ninguém aplaude, a água na raiz num dia em que não apareceu fruto nenhum.
Salomão amarra isso no mesmo capítulo, quando manda cuidar das ovelhas e do gado o melhor que você puder. É trabalho miúdo, repetido, sem glamour. E ele dá o motivo mais realista de todos: porque as riquezas e os governos não duram para sempre. Nem a herança nem o cargo são garantia de nada, os dois podem secar num ano ruim. O que fica com você é o hábito de cuidar, e é esse hábito que o versículo está pedindo, mais do que qualquer conta bancária.
E tem a segunda parte do versículo, que é a mais moderna de todas. Trate bem o seu patrão e você será recompensado. Vivemos numa cultura que ensina a desprezar quem está acima. Salomão diz o contrário: cuidar bem da relação com quem confiou uma responsabilidade a você é semear no lugar certo. Isso não é bajulação, é saber se relacionar bem. Bajular é regar de mentira, para colher hoje. Cuidar é regar de verdade, sabendo que a colheita vem depois.
3A Colheita Tem Relógio Próprio
Aqui está a parte que separa quem cuida de quem desiste. A figueira demora. Ela não dá figo na semana em que você plantou, e é justamente nesse intervalo, entre a rega e o fruto, que a maioria abandona a árvore. O erro raramente está em não plantar, está em arrancar a muda no terceiro mês porque ainda não veio nada.
Então o cuidado exige mais que disciplina: exige fé no intervalo. É continuar regando a figueira que ainda está seca, confiando na lei que Deus colocou na natureza: cuidado gera fruto no tempo certo, que é o tempo Dele.