Antes de qualquer coisa, é preciso saber quem está falando neste capítulo, porque isso muda tudo. O versículo 1 avisa: "São estas as palavras solenes que a mãe do rei Lemuel lhe disse". O capítulo abre com uma mãe orientando o filho sobre a vida, e é logo em seguida que vem o retrato da esposa ideal. Esse retrato nasce, portanto, dentro de um conselho de mãe para filho sobre o que dar valor numa mulher. Ele não foi escrito como lista de cobrança para elas cumprirem.
E repare qual é o primeiro elogio que essa mãe escolhe, logo depois de dizer que uma boa esposa vale mais que pedras preciosas. Não é a beleza, não é o talento na cozinha, não é a religiosidade aparente. É a confiança: o marido dela confia nela.
Reflexão
1Confiança é o Que Faz a Casa Funcionar
Repare no que o versículo liga: confiança e prosperidade, na mesma frase. Onde existe confiança, a casa não gasta energia com vigilância, e essa energia sobra para construir.
Pense no oposto, que é bem mais comum do que se admite. A compra que é escondida e some do extrato. A senha que ninguém mais pode ver. A pergunta simples que vira interrogatório porque as duas partes já esperam a mentira. O nada que quer dizer tudo. Uma casa assim pode até ter dinheiro, mas vive pobre de paz, porque cada conversa custa caro.
Confiança é o contrário disso. É poder viajar sem se explicar. É saber que o dinheiro combinado vai ser usado no que foi combinado. É dormir sem revistar o celular do outro. Esse é o ativo que nenhum banco financia e nenhum salário compra.
2A Régua Vale Para os Dois Lados
O versículo elogia uma mulher, e é justo que o texto seja lido como ele é. Mas o princípio não tem dono: uma casa só funciona quando a confiança corre nas duas direções. Se a esposa é confiável e o marido não é, o problema da casa continua inteiro.
Vale perguntar, então, do seu lado: a sua palavra dentro de casa vale o que promete? O prazo que você deu para resolver aquilo foi cumprido? O dinheiro que você disse que ia entrar entrou? A conversa que você prometeu ter aconteceu, ou virou mais um depois a gente vê? Confiança em casa não se ganha com discurso, se ganha na miudeza repetida.
E tem uma coisa que muita gente esquece: confiar é um elogio ativo, e não passivo. Delegar de verdade, sem ficar por cima conferindo, é o jeito mais concreto de dizer a alguém que você o considera capaz. Quem confia entrega o volante, e quem só fiscaliza está dizendo o contrário, mesmo que nunca fale nada.
3O Capítulo Termina em Reconhecimento
Aqui é preciso dizer uma coisa que muita mulher precisa ouvir. Provérbios 31 já foi usado como régua para esmagar, como se fosse uma lista de tarefas impossíveis, e muita gente saiu de uma pregação sobre esse capítulo se sentindo em dívida.
Duas coisas no próprio texto desmontam esse uso. A primeira é o versículo 1, que já vimos: quem fala é uma mãe ensinando o filho a valorizar. O conselho tem um destinatário claro, e o destinatário é ele. A segunda é o fim do capítulo. O versículo 30 diz que "a formosura é uma ilusão, e a beleza acaba, mas a mulher que teme o Senhor Deus será elogiada". A raiz de tudo está na relação dela com Deus, muito antes de qualquer desempenho doméstico. E o versículo 31 fecha assim: "Deem a ela o que merece por tudo o que faz, e que seja elogiada por todos."
Leia de novo o final. O capítulo não termina mandando ela fazer mais, termina mandando os outros reconhecerem. É um texto de honra, e não uma cobrança.