Quem fala aqui é a própria Sabedoria, que alguns versículos antes aparece "gritando nas ruas e nas praças" (1.20). Ela não sussurrou num canto escondido, não mandou recado cifrado. Gritou em praça pública. E o versículo de hoje é a queixa dela depois de gritar.
Repare que a frase tem quatro verbos, e é isso que a torna incômoda. Do lado dela, dois: chamou e convidou. Do lado de quem ouviu, dois também: não ouviu e não deu atenção. Ou seja, houve esforço dos dois lados. O esforço de falar e o esforço de ignorar.
Reflexão
1Chamar e Convidar São Coisas Diferentes
Vale separar os dois verbos, porque eles não fazem a mesma coisa. Chamar é alertar, é a mão levantada dizendo que tem perigo ali na frente. Convidar é oferecer, é a porta aberta com uma cadeira do lado de dentro. A Sabedoria fez as duas coisas: avisou do risco e ofereceu o caminho.
Isso desmonta uma desculpa comum. A gente gosta de dizer que ninguém avisou, que a informação não chegou, que faltou oportunidade. Mas na maioria das histórias que terminam mal, houve aviso e houve porta aberta. Faltou parar e responder.
Pense nos avisos que chegam gritando na sua praça hoje. O exame que veio alterado e você guardou na gaveta. O sócio que disse duas vezes que aquele contrato tinha um buraco. A pessoa que falou que estava se sentindo sozinha dentro de casa. O amigo que comentou, meio sem jeito, que você anda bebendo mais que antes. Nenhum desses avisos foi sussurro, e todos passam pela mesma peneira: você ouviu, mas deu atenção?
2Quem Não Aceita Correção Fica Sem Professor
O versículo seguinte aperta mais: "Vocês rejeitaram todos os meus conselhos e não quiseram que eu os corrigisse" (1.25). Guarde essa segunda parte, porque ela é a mais perigosa. Não é só rejeitar um conselho pontual, é criar uma reputação de quem não aceita ser corrigido.
E o que acontece com quem constrói essa reputação? As pessoas param de avisar. Elas não brigam com você, não fazem escândalo, apenas desistem em silêncio. O sócio guarda a observação. A esposa cansa de repetir. O funcionário aprende que apontar erro só dá trabalho e passa a responder que está tudo certo.
Aí você entra na fase mais perigosa da vida: o silêncio confortável. Tudo parece calmo, ninguém reclama, e você conclui que está indo bem. Mas o silêncio ali não é sinal de acerto, é sinal de que as pessoas desistiram de falar. A Sabedoria continua gritando na praça, mas você já treinou todo mundo em volta a falar baixinho.
3A Parte Difícil Deste Texto
Preciso tratar de frente o que vem depois, porque é o trecho mais duro de Provérbios e seria desonesto pular. A Sabedoria diz que, "quando estiverem em dificuldades, eu rirei; e, quando o terror chegar, eu caçoarei de vocês" (1.26). Diz ainda que, quando chamarem, ela não responderá.
Duas coisas ajudam a ler isso sem transformar Deus num carrasco divertido. A primeira é que quem fala nesse poema é a Sabedoria personificada, num jeito antigo e cru de descrever a colheita inevitável de uma escolha repetida. É a mesma lógica de dizer que o cigarro cobra a conta: a conta chegando não significa que alguém está achando graça da sua dor.
A segunda é o final do próprio capítulo, que muita gente nunca leu: "Mas quem me ouvir terá segurança, viverá tranquilo e não terá motivo para ter medo de nada" (1.33). O poema não termina em ameaça, termina em promessa.