Salomão está falando com um filho sobre adultério, e no meio do assunto ele para e descreve a mecânica de qualquer pecado repetido. A frase é cirúrgica: a rede é do seu próprio pecado.
Repare no que ele não diz. Não fala em castigo caindo do céu, não fala em inimigo armando cilada, não fala em azar. Diz que o homem é apanhado na própria rede. A consequência não veio de fora, ela estava sendo construída de dentro o tempo todo.
Reflexão
1A Rede é Tecida em Casa
Rede não se faz com um fio. Um fio sozinho não segura ninguém, arrebenta com um puxão. Rede é feita de muitos fios finos, cruzados durante um tempo, e é essa soma que segura um homem adulto.
Pense nos primeiros fios, porque eles nunca parecem perigosos. O primeiro copo, que era social. O primeiro só olhando, que era curiosidade. O primeiro número arredondado na planilha, que ninguém ia conferir. A primeira conversa que era só amizade, com alguém que não era a sua esposa. A primeira aposta, que era brincadeira com dinheiro pequeno.
Nenhum desses fios prende ninguém. Por isso a pessoa não vê problema, e é justamente essa a genialidade da armadilha. Ninguém entra numa rede achando que está entrando numa rede.
2A Armadilha Promete Liberdade
Tiago descreve o mesmo mecanismo com uma palavra que vale ouro: "as pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios maus desejos". Guarde o verbo enganadas. O engano faz parte do projeto.
E o engano é sempre o mesmo: aquilo se vende como liberdade e entrega escravidão. A bebida promete relaxar e depois exige. O jogo promete emoção e depois cobra. A relação escondida promete se sentir vivo de novo e depois vira uma segunda vida a ser administrada, com senhas, horários e mentiras que precisam bater.
E existe um sinal claro de que a rede já se fechou: a pessoa continua achando que controla. É a frase mais repetida de quem está preso: eu paro quando eu quiser. Só que quem realmente controla não precisa dizer isso, e quem diz isso normalmente já tentou parar e voltou.
3Falta de Controle Não é Falta de Informação
O versículo seguinte fecha o diagnóstico de um jeito duro: "Morre porque não se controla: a sua grande loucura o levará à cova" (5.23). Salomão não diz que o homem morreu por ignorância.
Isso é importante, e é o que separa este estudo de um sermão inútil. Ninguém que está preso precisa de mais informação. O alcoólatra sabe o que a bebida faz com o fígado dele. Quem está no adultério sabe o tamanho do estrago que vem. Quem apostou o salário sabe a conta que vai chegar. Todo mundo sabe, e mesmo assim continua.
Então, se saber não resolve e força de vontade não basta, o texto está apontando para outro lugar. E é aí que o Novo Testamento entra, não com um conselho melhor, mas com uma chave.