Antes de qualquer coisa, uma observação necessária sobre a expressão sem valor, porque ela pode ferir quem lê rápido. O texto não está dizendo que existe ser humano sem valor diante de Deus, e o Evangelho inteiro desmente isso. A palavra descreve o que aquela vida produz e o quanto a palavra daquela pessoa vale: é gente de quem não se colhe nada de bom, e cuja garantia não garante nada. É um juízo sobre a conduta, e não uma sentença sobre a alma.
Feita essa ressalva, olhe para o verbo, que é onde mora o peso do versículo: vivem dizendo. Não está escrito que mentiram, nem que mentiram uma vez numa situação difícil. Está escrito que vivem dizendo, que é a forma de descrever alguém que já não faz mais esforço para mentir.
Reflexão
1Existe uma Linha, e Ela é Fina
Todo mundo já mentiu. A criança que quebrou o vaso, o adulto que inventou um trânsito para justificar o atraso, o profissional que disse que o arquivo já estava quase pronto. Se o versículo estivesse falando disso, ele estaria descrevendo a humanidade inteira, em vez de um tipo específico de gente.
A diferença está na relação que a pessoa tem com a mentira. Existe quem mente e fica mal, remoendo, com vontade de voltar e consertar. E existe quem mente e não sente nada, porque a mentira virou uma ferramenta a mais na caixa, ao lado do telefone e da planilha.
A linha entre as duas é fina e se atravessa devagar. Primeiro a pessoa mente e se justifica. Depois mente e se acostuma. Depois mente e nem lembra que mentiu, porque já nem registra aquilo como mentira, registra como jeito de resolver. Quando chega nesse ponto, o problema deixou de ser um ato e virou um caráter.
2A Mentira Tem Corpo e Tem Cúmplice
O versículo seguinte descreve uma cena curiosa: "Piscam e fazem gestos para enganar os outros" (6.13). Repare no detalhe, porque ele é genial. Piscar não é linguagem de quem mente sozinho, é sinal combinado. Quem pisca está avisando alguém que está na jogada.
Isso desmonta a ideia de que a mentira é um pecado solitário. Ela quase sempre precisa de uma rede pequena: alguém que sustenta a versão, alguém que muda de assunto na hora certa, alguém que não desmente. E quase todo mundo já foi essa segunda pessoa, aquela que não mentiu, apenas ficou calada enquanto a mentira era contada na frente dela.
E o versículo 14 completa dizendo que essas pessoas "espalham confusão por toda parte". É uma descrição precisa. Quem vive de mentira precisa de ambiente turvo para operar, porque na clareza a versão dele não sobrevive. Onde tudo está confuso, ninguém consegue conferir nada, e é exatamente aí que ele trabalha melhor.
3O Problema Não Está na Boca
Aqui está a virada do dia, e ela vem de Jesus. Ele disse: "A boca fala do que o coração está cheio." E completou com uma imagem de estoque: "A pessoa boa tira o bem do seu depósito de coisas boas, e a pessoa má tira o mal do seu depósito de coisas más."
Guarde a palavra depósito. A boca não fabrica nada, ela só entrega o que já estava guardado. Por isso, controlar a boca é um esforço que funciona por um tempo e falha na pressão, porque no dia do susto, do cansaço ou da raiva sai o que estava estocado, sem passar pelo filtro.
Isso muda o alvo do trabalho. Não adianta prometer que vai falar menos, adianta perguntar o que você anda guardando. O que você consome, com quem você conversa, o que você deixa entrar sem revisar, tudo isso vai para o depósito, e um dia o depósito abre.