Esse é um dos versículos mais melancólicos de Provérbios, e também um dos mais honestos. Ele não dá conselho, não corrige ninguém, não promete solução. Apenas descreve como é ser gente.
E o que ele descreve é o seguinte: existe uma parte da sua experiência que não atravessa. A sua amargura tem detalhes que ninguém alcança, e a sua alegria tem um sabor que você não consegue transferir para quem está de fora.
Reflexão
1Existe um Cômodo Onde Você Entra Sozinho
Todo mundo já viveu isso e quase ninguém fala. Você conta a situação inteira, com detalhes, e a pessoa responde com empatia sincera. Mesmo assim sobra um resto que ficou de fora, e você percebe que a versão que ela entendeu não é a que você está vivendo.
Pense nos lugares onde isso acontece. O corredor do hospital, com você sabendo o que aquele exame significa para a sua história e não só para a medicina. O casamento que está acabando por dentro enquanto todo mundo elogia o casal. A promoção que você comemorou sozinho porque, em casa, aquilo era só um cargo com nome estranho. A saudade de alguém que os outros mal conheceram.
E é importante dizer que ninguém é culpado disso. As pessoas não são frias, elas só não estão dentro. Cobrar que alguém sinta exatamente o que você sente é cobrar o impossível, e boa parte das brigas de casal nasce exatamente dessa cobrança.
Tem um alívio em ver isso escrito na Bíblia. Você não é uma pessoa difícil nem excessivamente sensível. Você é humano, e a Bíblia sabia disso antes de qualquer manual de autoajuda.
2Repare na Palavra Estranhos
Agora olhe o detalhe que muda o dia, e que está no próprio versículo. Não está escrito que você não pode repartir a sua alegria com ninguém. Está escrito que não pode repartir com os estranhos.
Essa palavra abre uma porta. O texto está descrevendo a distância entre você e quem é de fora, e não decretando solidão permanente. Existe um tipo de intimidade que diminui muito essa distância, mesmo sem eliminá-la.
E aí vem a pergunta prática do dia: quantas pessoas na sua vida deixaram de ser estranhas? Muita gente sofre desse versículo não porque a alma humana é intransponível, e sim porque nunca deixou ninguém entrar. É diferente ter dez amigos de conversa rasa e ter dois que sabem o que está acontecendo de verdade.
Intimidade custa tempo e custa exposição, que são justamente as duas coisas que adulto ocupado não quer gastar. Aí a pessoa chega aos quarenta com muitos contatos e nenhum confidente, e conclui que ninguém a entende. Talvez ninguém tenha tido a chance.
3O Sorriso Que Fecha a Porta
O próprio capítulo entrega a outra metade do problema, três versículos depois: "O sorriso pode esconder a tristeza; quando a felicidade vai embora, a tristeza já chegou" (14.13).
Aqui está o agravante. Além da barreira natural entre as pessoas, existe a barreira que a gente constrói. Você responde que está tudo bem antes mesmo de pensar. Posta a foto boa da viagem em que brigaram o tempo todo. Chega na igreja com a cara de quem está firme.
Repare no resultado dessa combinação. Ninguém consegue entrar completamente, e você ainda tranca a porta por dentro. A solidão vira dupla: uma parte é da condição humana, e a outra é obra sua.
E existe um motivo honesto por trás disso, que vale nomear sem julgamento. A gente esconde porque tem medo de virar peso, porque já contou uma vez e foi mal recebido, porque aprendeu que gente forte não reclama. Nenhum desses motivos é bobo. Só que todos cobram o mesmo preço.