Antes de tudo, uma palavra que engana. Miserável aqui não quer dizer pobre. Quer dizer sovina, mesquinho, aquele que conta cada centavo e cada garfada. A NTLH está usando a palavra no sentido antigo dela.
E repare que o capítulo 23 abre com duas mesas perigosas, quase idênticas. Nos primeiros versículos vem a mesa do poderoso, com este aviso: "não tenha pressa de comer a boa comida que ele serve, pois ele pode estar querendo enganar você". Aqui, no versículo 6, vem a mesa do sovina, e a NTLH repete a frase inteira: nem tenha pressa de comer a boa comida que ele serve.
Provérbios 23 é um capítulo sobre convites. E sobre o fato de que nem todo convite é convite.
Reflexão
1A Boca Diz Coma, a Cabeça Está Contando
O versículo seguinte entrega o jogo com uma precisão quase cruel: "'coma um pouco mais', diz ele, mas não está sendo sincero".
Repare no desenho da cena. A frase é generosa. O prato é bom. E por baixo tem uma calculadora ligada.
Você já esteve nessa mesa. O anfitrião insiste para você repetir e comenta, rindo, quanto custou o corte da carne. O chefe diz para pedir o que quiser e depois comenta o valor da conta com outra pessoa. O parente serve com fartura e no meio do almoço lembra que este ano foi ele quem comprou tudo.
A comida é de verdade. O acolhimento não é. E aquele desconforto que você sentiu no meio do jantar era informação, não frescura.
2Todo Prato Desses Vem Com Fatura
O jantar em si é a parte barata. O caro vem depois.
A generosidade calculada tem uma característica que a denuncia: ela não termina. Ela vira crédito.
Você conhece as frases. Depois de tudo que eu fiz por você. Eu te dei a sua primeira chance. Eu paguei a sua passagem naquele ano. E repare que a conversa nunca é sobre o passado. É sempre sobre agora, porque o favor antigo está sendo usado como argumento numa discussão de hoje.
Aqui aparece o contraste que resolve tudo. Presente de verdade não tem memória. Quem dá de graça esquece o que deu. Quem dá calculando guarda a nota fiscal e apresenta no momento oportuno.
E existe um teste simples, que funciona antes de você aceitar. Pergunte a si mesmo se essa pessoa vai conseguir citar isso daqui a cinco anos. Se a resposta for sim, o que está na mesa não é presente, é adiantamento.
3Por Que a Gente Senta Assim Mesmo
Falta a parte de dentro, que é a mais honesta de todas. Se dá para sentir o clima, por que a gente aceita?
O primeiro motivo é constrangimento. Recusar comida é quase uma agressão na nossa cultura, e levantar da mesa exige uma coragem social que quase ninguém tem no momento.
O segundo é mais fundo. A gente confunde ser querido com ser útil, e confunde estar naquela mesa com ter valor. Sentar ali parece promoção.
O terceiro é o mais simples de todos: a comida é boa mesmo. Repare que o versículo não diz que a comida é ruim. Ele fala da boa comida que ele serve, e manda apenas não ter pressa dela.
E o versículo 8 fecha a conta de um jeito que dá até dó: "você vomitará o pouco que comeu, e todos os seus elogios ficarão desperdiçados". Leia essa última parte devagar. Você gastou gratidão com quem nunca deu nada de verdade.