Este mês já teve dois versículos sobre dinheiro que chega errado. No dia 20 era o dinheiro fácil, e o problema estava na falta de processo. No dia 21 era o dinheiro desonesto, e o problema estava na armadilha.
Hoje o assunto é outro, e é bem mais desconfortável, porque não fala do dinheiro. Fala do relógio.
E o próprio capítulo entrega o comentário dois versículos adiante, no 22: "o ganancioso tem tanta pressa de ficar rico, que nem percebe que a pobreza está chegando."
Reflexão
1A Oposição do Versículo Não é Rico Contra Pobre
Comece pelo par que Provérbios escolheu, porque quase todo mundo lê errado.
De um lado está a pessoa honesta. Do outro, quem tem pressa. O contrário de apressado, aqui, não é pobre. É honesto.
Repare no tamanho disso. O versículo não está condenando querer prosperar, nem elogiando a pobreza. Ele está apontando a velocidade como o lugar onde a honestidade costuma vazar.
E faz sentido, porque é assim que acontece na prática. Ninguém acorda decidindo ser desonesto. A pessoa aceita um prazo impossível, e para caber no prazo ela corta uma etapa. Depois arredonda um número. Depois promete o que ainda não existe. A pressa não pediu para ela mentir, apenas criou a única condição em que mentir parecia razoável.
2A Pressa Cega
Agora o versículo 22, que é onde o dia fica sério: "o ganancioso tem tanta pressa de ficar rico, que nem percebe que a pobreza está chegando."
Pare e enxergue a cena, porque ela é quase cômica de tão absurda. A pessoa corre em direção à riqueza. A pobreza vem andando na direção dela. E as duas se cruzam sem que ela veja.
O motivo é físico, antes de ser moral. Velocidade reduz o campo de visão. Quem corre enxerga o ponto de chegada e perde tudo que está nas laterais.
Você já viu isso de perto. O empresário que não olhou o fluxo de caixa porque estava fechando a próxima venda. Quem assinou sem ler o contrato inteiro porque a janela ia fechar. O casal que não percebeu que parou de conversar porque os dois estavam construindo o mesmo sonho.
E aqui está a informação mais útil do dia: a urgência é a ferramenta preferida de quem quer te vender uma coisa ruim. Só hoje. Últimas vagas. Se você não entrar agora, perde. Sempre que alguém aperta o seu relógio, essa pessoa está tentando desligar a sua visão lateral.
3De Onde Vem a Pressa
Falta a camada de baixo, que é a mais honesta. Por que a gente corre?
Quase nunca é por ambição pura. Na maioria das vezes é medo ou comparação. Medo de ficar para trás, de não dar conta, de chegar aos cinquenta sem ter construído nada. E comparação, que é o medo com nome e sobrenome: aquele conhecido da sua idade que já conseguiu.
Tem ainda uma teologia escondida na pressa, e quase ninguém percebe que está crendo nela. Se eu não garantir agora, ninguém garante. É a fé no relógio, no lugar da fé em Deus.
E cabe uma distinção que precisa ser dita, porque muita gente vai ler isso apertada de verdade. Existe urgência legítima. Conta vencendo, remédio para comprar, filho para manter na escola. Isso não é ganância, é aperto, e Deus não repreende quem está apertado.
A diferença é simples de enxergar. O aperto tem um número e uma data. A ganância nunca chega, porque o alvo se move junto com você.