Ontem o versículo mandava tapar a boca com a mão. Hoje, um capítulo depois, a ordem é o contrário: fale.
Dois dias seguidos, a mesma boca, comandos opostos. E a diferença entre os dois não está no volume nem no temperamento. Está em por quem você vai falar.
Ontem a boca ia se abrir por causa do orgulho ferido, e a instrução era fechar. Hoje a boca precisa se abrir por alguém que não consegue, e a instrução é falar.
Repare também em quem está dando esse conselho. O capítulo abre dizendo que são "as palavras solenes que a mãe do rei Lemuel lhe disse". Ou seja, o último conselho sobre poder no livro inteiro vem de uma mãe orientando o filho que virou rei. E ela não fala em conquista, nem em legado. Fala em usar a voz pelos que não têm.
Reflexão
1Quem São os Que Não Podem se Defender
Comece tirando isso do campo abstrato, porque a expressão é grande demais para caber só nos casos extremos.
Existe quem não domina a linguagem. A pessoa que assina o contrato sem entender a cláusula, que ouve o laudo médico e balança a cabeça, que recebe uma intimação e não sabe o que aquilo significa.
Existe quem depende de quem está errando. O funcionário diante do chefe, a criança diante do adulto, o idoso diante do filho que administra o dinheiro dele.
Existe quem não está na sala. E essa é a categoria mais comum de todas. Alguém está sendo decidido neste exato momento numa reunião de que não participa.
E existe quem já falou e não foi ouvido. Repare bem nessa, porque muda o diagnóstico: quase nunca a pessoa é muda. Ela fala. Só que a voz dela não pesa naquela sala. Você tem uma voz que pesa. É por isso que o versículo é dirigido a você e não a ela.
2Abrir a Boca Custa Alguma Coisa
Agora a parte que raramente entra no assunto. Falar por outro tem preço, e é bom saber disso antes.
Você gasta o seu capital com uma pessoa que não vai poder te devolver nada. Vira o chato da reunião. Fica marcado como o que sempre levanta questão. Às vezes perde a simpatia de quem decide.
As cenas são pequenas e bem reconhecíveis. Discordar publicamente do tratamento que deram ao estagiário. Perguntar por que o fornecedor pequeno foi cortado sem aviso. Dizer, na mesa do almoço de família, que aquela piada não teve graça.
E aqui está o teste incômodo: quem fala por quem não pode falar quase sempre paga alguma coisa. Se você abriu a boca e não custou absolutamente nada, existe uma boa chance de você ter falado no lugar seguro, para a plateia certa, na hora em que já era consenso.
3A Diferença Entre Falar Por e Falar Sobre
Falta o ponto mais fino do dia, e ele ficou muito mais fácil de errar nos últimos anos.
Hoje é simples falar sobre os desamparados. Dá para se indignar publicamente, postar, compartilhar, ter a opinião correta e sentir que a parte foi feita. É rápido, é barato e às vezes até rende aplauso.
Falar por alguém é outra coisa completamente diferente. Tem nome próprio, acontece numa sala específica, e tem uma pessoa do outro lado que vai sentir o efeito no mesmo dia.
Repare no que o versículo pede. Ele não manda você ter uma posição sobre o assunto dos desamparados. Manda falar a favor de pessoas.
E o teste é constrangedor de tão simples: a pessoa por quem você falou sabe o seu nome? Se a resposta for não, provavelmente você falou sobre. E falar sobre é bom, mas não é isso que o versículo está pedindo.