A NTLH escolheu uma expressão que qualquer brasileiro entende sem precisar de explicação: não se faça de importante.
E o versículo seguinte revela o tipo de argumento que Provérbios usa aqui. Não tem sermão, tem cálculo: "é melhor que depois lhe deem um lugar de honra do que você ser humilhado na presença das autoridades".
Guarde essa frase, porque ela contém uma conta que quase ninguém faz.
Reflexão
1A Conta de Risco Que Ninguém Faz
Olhe os dois caminhos possíveis dentro da mesma sala.
No primeiro, você mesmo se coloca no lugar bom. Se der certo, ninguém repara, porque aquilo virou apenas o esperado. Se der errado, você levanta na frente de todo mundo e caminha até o fundo com a sala inteira olhando.
No segundo, você fica num lugar discreto. Se ninguém chamar, também ninguém reparou, e o custo foi zero. Se chamarem, a sala inteira vê você sendo puxado para a frente.
Repare no desenho. O primeiro caminho tem ganho invisível e perda pública. O segundo tem perda invisível e ganho público.
Ou seja, se fazer de importante é uma aposta com prêmio pequeno e prejuízo grande. E a maioria das pessoas faz essa aposta todo dia sem nunca ter olhado os números.
2Se Fazer de Importante Tem Sotaque
Quase ninguém hoje senta na mesa de um rei, então vale traduzir a cena.
É o currículo que engorda o cargo em duas linhas. É a menção casual ao cliente famoso, encaixada em qualquer conversa. É o estou em reunião quando não está. É a foto do lugar em vez da foto do momento. É contar a história com um detalhe a mais do que aconteceu.
E existe a versão mais fina de todas, que é falar da própria humildade.
Agora a parte incômoda. Isso quase sempre é percebido. As pessoas leem postura, escolha de palavra e tempo de fala com uma precisão que a gente subestima. A sala inteira costuma perceber, e a única pessoa que não percebe é quem está fazendo.
3O Mel e o Elogio
No fim do mesmo capítulo, o assunto se fecha com uma imagem de cozinha: "assim como mel demais não faz bem, também não é bom andar procurando elogios".
Repare no que está sendo condenado ali. Não é o elogio. É a procura.
Mel é bom. Elogio é bom, faz bem e às vezes segura uma pessoa num dia difícil. O que estraga é a dose e a caça.
E dá para saber quando virou caça. Você conta a história de um jeito que obriga a outra pessoa a elogiar. Você posta e volta no celular de dez em dez minutos. Você diz que não foi nada esperando que insistam. Você fica levemente irritado quando o crédito vai para outro, mesmo achando aquilo pequeno demais para admitir.